Truques literários: o super-outro

Às vezes me pego descobrindo algum tipo de estratégia literária que acho particularmente interessante mas na qual nunca tinha pensado antes.

Hoje tive uma dessas. Lendo “In the light of what we know” de Zia Haider Rahman (sim, não resisti a dar uma chance depois de descobrir que existia – a quem não sabe do que estou falando, ver post anterior sobre literatura financeira), o protagonista abre o livro descrevendo um amigo próximo com quem parece que vai dialogar ao longo da obra. O amigo é extraordinário, fala de matemática e de poesia como um superser, um super-outro, um herói da memória e da inteligência perfeitas, ainda que provavelmente tenha suas falhas enquanto pessoa no mundo (veremos).

O truque é isso de ter um superser de superinteligência, superpoética como contraponto ao protagonista imperfeito (frequentemente um protagonista que, como nós, busca esse tipo de perfeição e se frustra por ver que se esquece das coisas, das poesias e das ideias, e contamina o dia a dia com o sono humano).

Seria fácil dizer que esse contraponto serve para criar um ideal a ser perseguido pelo protagonista ao longo de sua história. Mais interessante provavelmente é apenas pensá-lo como um acompanhante, como poderia ser uma boa trilha sonora que acompanha um filme para completá-lo já que nossa vida já é silenciosa o suficiente, só que ao invés de usar música, usa esse mega-self, uma trilha não-sonora, trilha humana. Lembro de coisa parecida só em livros do Pamuk como o Neve. Mas claro que o Pamuk faz isso mil vezes melhor.