Nabokov e a complexidade de cada um

Ok, já aviso desde agora que não é porque o blog é de uma revista de nova literatura de língua portuguesa que vou falar só de autores novos e só de quem escreve em português. O blog é o blog e a revista é a revista (nada como silogismos para resolver assuntos controversos).

Parei por aqui só para dizer que acabei de terminar o O Olho (The eye), do Vladimir Nabokov, e precisava tirar alguns comentários da cabeça. Muito basicamente, o Nabokov queria falar sobre o olhar sobre o outro, que reduz a complexidade infinita de cada um a imagens bastante pessoais e fragmentadas. Os personagens (mini-spoiler) passam a maior parte do tempo conversando conversas relativamente superficiais como fazemos na vida, no mundo, no cosmos.

O que ficou batendo na minha cabeça quando fechei o livro não é que é impressionante que reduzamos a complexidade dos outros a fragmentos já que qualquer outra coisa seria quase impossível. Mas sim que mesmo esses fragmentos sejam baseados nessas pequenas performances, quase circenses, de fazer pequenos espetáculos de si diante das mini-plateias de cada dia. Porque afinal é isso o que domina a maior parte das interações. E estamos bastante conformados com isso. E fico pensando, não seria possível refundar a interação? Reinventar a comunicação? E se ao invés da eterna troca de gentilezas, piadas e comentários genéricos sobre política e seriados uma conversa pudesse ser uma escavação constante da complexidade do outro? Afinal a vida é curta e gente pra escavar tem aos montes.

Aliás, ler literatura alheia é uma ótima forma de escavação.