Abre aspas

Já perdi a conta de quantos animais já degolamos, esquartejamos, dissecamos ou atropelamos na Raimundo. Mas poucos fizeram tão de maneira tão poética, tão filosófica, tão ensanguentada quanto Marina Skylab, no conto de Davi Boaventura, em nossa Edição amarrada em um poste.

Fotografei a cabeça dos onze pássaros que degolei no primeiro mês e dos seis do mês seguinte para que eu pudesse observar outra vez um pouco antes de dormir e procurei catalogar cada um de acordo com a cor, penugem, bico, formato dos olhos, onde comprei e horário da morte. Em um verso de caderno, eu listei sete pardais, cinco canários, um sabiá e quatro cotovias. Mas depois, no terceiro mês, de repente os pássaros não me interessavam mais e experimentei um hamster e me repeti na semana seguinte e novamente quatro dias mais tarde, matando quatro no total já que no último dia matei dois. Quando eu já planejava matar um cachorro, ou um coelho, desisti dos animais porque, apesar de estar cada vez mais perto do instante onde eu simplesmente iria olhar e iria entender e iria respirar aliviada, percebi não ser possível descobrir o que eu pretendia descobrir com pássaros nem com coelhos ou cachorros e nem com animal nenhum.

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