Abre aspas

Dei uma repaginada básica no blog com a intenção de fazer a coisa aqui ficar mais ativa. A ideia agora é que o blog da Raimundo passe a funcionar mais como um blog pessoal… dos editores! Ou seja, meu e da Raquel. E provavelmente mais meu por enquanto já que a Raquel está de mudança e certamente não tem tempo pra blog por enquanto. Enfim. Em suma, vamos usar esse espaço pra postar algumas ideias quando tivermos ideias, e na maior parte do tempo vamos falar de coisas que estamos lendo, gostando, descobrindo, divulgando eventos, ou simplesmente postando foto de bibliotecas fofas ou de capas colordinhas de livros. Fantástico né?

Pra ver se a coisa pega no tranco, começo com o primeiro post da série Abre aspas, onde colocarei, enfim, as citações que eu quiser colocar. E pra começar, nada melhor que um bom começo, com o parágrafo que abre o conto “Sobre cães e olhos” de Thais Lancman, lá na já longínqua edição inaugural da Raimundo.

Um chiuahua sem um olho de uma cidadezinha em Louisiana é o mais próximo que eu tenho de um amigo. Vejo diariamente as as fotos que seu dono publica na Internet, e por meio delas sei como ele se sente. O olhar pela metade do cachorro diz mais que as roupinhas e o cenário que o seu dono prepara para cada imagem. Eu sei o que ele sente, nós sabemos.

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Projeto Escritores na Estrada!

Desde o começo da revista temos batido na tecla de que temos muitos ótimos escritores jovens no Brasil a serem descobertos, mas muito poucos leitores. O número de leitores fica ainda melhor quando se trata de ler nova literatura, e a impressão que fica é a de que há uma imensa distância, um precipício separando leitores de novos escritores no país.

Por essas e outras que a gente vai divulgar com todo o prazer o lindo projeto ESCRITORES NA ESTRADA. A ideia é justamente tentar fazer essa ponte entre escritores e mundo afora. São cinco jovens escritores que organizam o projeto, entre eles Jeanne Callegari, que publicou sua  de seus poemas “Se a cada comentário de blog eu ganhasse dez centavos e outros poemas” na Raimundo em nossa primeiríssima edição, no verão passado.

Segundo eles mesmos: “Vamos visitar várias capitais brasileiras. Com livros na mão, algumas ideias na cabeça e a Van Poesia na estrada, vamos realizar oficinas, debates, leituras e bate-papos com outros escritores, que serão documentadas em vídeo e disponibilizados no site do projeto”.

Quer ajudar? Os ESCRITORES NA ESTRADA funcionam na base do financiamento coletivo (crowdfunding), estão na fase final de financiamento do projeto e precisam muito da ajuda de todos. Saiba mais sobre o projeto e sobre como contribuir (e sobre as várias coisas que você pode ganhar contribuindo, claro!) entrando em www.catarse.me/pt/escritoresnaestrada .

 

Trecho de “o poço de baixo. ou a mulher dourado”, de Geruza Zelnys de Almeida

o poço de baixo. ou a mulher dourado. Este é o título do conto de Geruza Zelnys de Almeida que também fará parte da edição de lançamento da Raimundo. Confira abaixo o trecho que abre a narrativa.

sem sombras e dúvidas eles eram um casal feliz. ele mais do que ela porque sempre sorrindo e o pão quentinho na hora do café. dentes brancos que todos viam. ela sorria, mas um rumoroso abafado que não se sabe de que paragens soprava seco no hálito de um bom dia, boa tarde ou noite. pouco falava mas era educada. diziam os da rua que ouvia vozes. mas eu mesma nunca conversei com ela. de tudo que sabia o mais é que era linda e tinha os cabelos negros como riscos de carvão sobre a pele clarinha de quase pó de arroz. não era oriental, mas as mãos e os passos e o ritmo da respiração deviam de ter nascido por lás e acho hoje mesmo que sentiam saudades de casa.

Trecho de “Sobre cães e olhos”, de Thais Lancman

“Sobre cães e olhos”, de Thais Lancman, é um dos contos que será publicado no primeiro número da Raimundo, a ser lançado nos próximos dias. Abaixo, as primeiras linhas dão uma prévia do estilo da autora.

Um chiuahua sem um olho de uma cidadezinha em Louisiana é o mais próximo que eu tenho de um amigo. Vejo diariamente as as fotos que seu dono publica na Internet, e por meio delas sei como ele se sente. O olhar pela metade do cachorro diz mais que as roupinhas e o cenário que o seu dono prepara para cada imagem. Eu sei o que ele sente, nós sabemos.
Nas últimas semanas, ele tem se mostrado aborrecido. Porém, tudo o que eu posso fazer é sinalizar que gostei daquela fotografia e de outras, eu e mais dez mil pessoas, sem gradação, como se todos gostassem com a mesma intensidade. Eu sei que não.

Lançamento do blog e prévia da revista

O primeiro número da Raimundo sairá nos próximos dias. Enquanto aguardamos, resolvemos aproveitar para antecipar o lançamento do blog da Raimundo, que será um canal de comunicação mais informal que teremos com nossos leitores e onde postaremos novidades sobre o número atual e os próximos.

Nos próximos dias, como uma forma de sentir um pouco a Raimundo que está vindo, o blog irá apresentar pequenos trechos de algumas das obras que farão parte deste nosso primeiro número. Serão sete contos, um ensaio e dezenove poemas ou coletâneas de poemas de jovens autores de diversas partes do país. Um deles é Davi Boaventura, que publicará com a gente seu conto “Marina Skylab”, cujas primeiras linhas apresentamos abaixo:

Minha irmã e eu no apartamento, a mesma cena de sempre.
Por que demorou?
O trânsito.
De verdade?
Lógico que não, ele demorou de novo para me pegar.
As duas deitadas no chão da sala e duas latinhas de cerveja, as pernas na parede. Maconha, incenso, um resto de pipoca amanteigada. Falamos sobre o Collor, a inflação, sobre o idiota do Davi, que é o marido de minha irmã, sobre o calor do meu novo apartamento minúsculo alugado, minha primeira vez morando sozinha. Falamos sobre nossa santíssima mãe e sua insistência em nos pedir, mesmo adultas, que rezássemos o santo anjo do senhor que a ti me confiou a piedade divina. E eu tentei falar sobre esse assunto que me incomodou na aula da semana, o nada, o conceito de nada, que é um paradoxo, um paradoxo óbvio, e desde pequena me incomoda – no discurso maluco do professor me incomodou ainda mais, me sufocou –, mas eu não sabia me explicar, e minha irmã tampouco sabia me entender, então me permanecia essa ânsia inútil em definir o nada, se é plausível ou não um vazio existir.

trecho de Marina Skylab, de Davi Boaventura

Não deixe de conferir o blog e nossa página no Facebook nos próximos dias para trechos de outras obras desta primeira edição e, claro, para conferir o lançamento da revista que deve acontecer já nos próximos dias.