Porque acho importante o Nobel de literatura ir para a não-ficção

É sempre precipitado comentar um Nobel de literatura poucos minutos depois do prêmio. E mais ainda quando você nunca leu nada sobre a autora além de uma rápida folheada de páginas em uma biblioteca e alguns comentários online.

Dito isso, achei que tinha que vir aqui dizer o quanto acho significativo que hoje, Svetlana Alexiêvich tenha sido anunciada uma das raríssimas autoras de não-ficção vencedora do Nobel de literatura.

Por quê? Porque vivemos um mundo que é cada vez mais descrito e narrado através de números, estatísticas, percentuais, de coletivos abstratos como “povo”, “população”, “sociedade”, “comunidade”, “bairro”, “comunidade aduaneira”, e toda sorte de instrumento de “síntese” daquilo que é a vida vivida pelas pessoas que, de tão sintética, lhe arranca tantos detalhes que o que sobra já nem se parece mais com vida de verdade. Isso pra mim é um baita erro, desses de jogar a humanidade num abismo.

E considerando que a economia, a ciência política e a sociologia não tem dado respostas a essa manipulação bizarra da ideia do que é estar vivo, aqui, agora, nesse planeta, e que pouquíssima gente lê antropologia, resta talvez pelo menos ainda a literatura.

Independente de outros juízos, a Alexiêvitch é descrita como alguém que faz exatamente isso, uma história das emoções, que para mim é uma forma piegas e economicista de dizer que ela tenta descrever a vida vivida das pessoas, como se houvesse outra forma de fazer isso. Enfim, espero que gere algumas reflexões nesse sentido.

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Truques literários: o super-outro

Às vezes me pego descobrindo algum tipo de estratégia literária que acho particularmente interessante mas na qual nunca tinha pensado antes.

Hoje tive uma dessas. Lendo “In the light of what we know” de Zia Haider Rahman (sim, não resisti a dar uma chance depois de descobrir que existia – a quem não sabe do que estou falando, ver post anterior sobre literatura financeira), o protagonista abre o livro descrevendo um amigo próximo com quem parece que vai dialogar ao longo da obra. O amigo é extraordinário, fala de matemática e de poesia como um superser, um super-outro, um herói da memória e da inteligência perfeitas, ainda que provavelmente tenha suas falhas enquanto pessoa no mundo (veremos).

O truque é isso de ter um superser de superinteligência, superpoética como contraponto ao protagonista imperfeito (frequentemente um protagonista que, como nós, busca esse tipo de perfeição e se frustra por ver que se esquece das coisas, das poesias e das ideias, e contamina o dia a dia com o sono humano).

Seria fácil dizer que esse contraponto serve para criar um ideal a ser perseguido pelo protagonista ao longo de sua história. Mais interessante provavelmente é apenas pensá-lo como um acompanhante, como poderia ser uma boa trilha sonora que acompanha um filme para completá-lo já que nossa vida já é silenciosa o suficiente, só que ao invés de usar música, usa esse mega-self, uma trilha não-sonora, trilha humana. Lembro de coisa parecida só em livros do Pamuk como o Neve. Mas claro que o Pamuk faz isso mil vezes melhor.

Literatura financeira

Cada dia que passa descubro uma nova categoria para classificação de textos literários. Aliás, gênero literário é o que não falta nesse mundo. Realistas, naturalistas, fantásticos, maravilhosos, fantásticos maravilhosos, sci-fi, cyberpunk, existencialista, sci-fi cyberpunk, e agora descobri também que existe a literatura financeira. E não, não é a bibliografia de uma disciplina aleatória de economia.

Vale como referência o ótimo artigo da Dissent Magazine, que traça todo o histórico da coisa, começando lá atrás com “O dinheiro” do Zola, passando por obras de Dos Passos e chegando nos dias atuais com uma pá de gente tentando NÃO APENAS falar sobre finanças em literatura mas realmente EXPLORAR a linguagem crítpica financeira como instrumento literário.

A questão levantada é ótima: em um mundo cada vez mais especializado e fragmentado, as formas de linguagem também se especializam. E porque não fazer literatura também com essa linguagem especializada? E quais são as suas possibilidades?

Por ora, não sei até que ponto tem gente em bolsas de valores lendo esse tipo de literatura, mas explorar a poesia da críptica capitalista em tempos de austeridade econômica me parece pertinente. Autores como John Lancaster e seu Capital, Mohsin Hamid e seu How to get filthy rich in rising Asia e, o que mais me deixou salivando, In the light of what we know de Zia Haider Rahman tem explorado essas possibilidades e tenho visto pouca gente falar disso.

Não sei se em breve teremos também literaturas explorando a linguagem críptica industrial, médica, ou farmacológica, mas bem que poderia ser bacana. A questão é que agora o momento é um momento em que a suposta “complexidade” do mundo financeiro faz com que apenas uma a elite econômica de auto-intitulados “especialistas” seja permitido pensar o que iremos e podemos fazer com o dinheiro do mundo e seus mercados. E esse mundo de especialistas começa a ser cutucado pela literatura.

E fica a pergunta: alguém está fazendo literatura financeira no Brasil? Jogando com linguagens crítpicas de especialistas? Quem? Quem souber ou tiver o paradeiro, quero nomes.

Nabokov e a complexidade de cada um

Ok, já aviso desde agora que não é porque o blog é de uma revista de nova literatura de língua portuguesa que vou falar só de autores novos e só de quem escreve em português. O blog é o blog e a revista é a revista (nada como silogismos para resolver assuntos controversos).

Parei por aqui só para dizer que acabei de terminar o O Olho (The eye), do Vladimir Nabokov, e precisava tirar alguns comentários da cabeça. Muito basicamente, o Nabokov queria falar sobre o olhar sobre o outro, que reduz a complexidade infinita de cada um a imagens bastante pessoais e fragmentadas. Os personagens (mini-spoiler) passam a maior parte do tempo conversando conversas relativamente superficiais como fazemos na vida, no mundo, no cosmos.

O que ficou batendo na minha cabeça quando fechei o livro não é que é impressionante que reduzamos a complexidade dos outros a fragmentos já que qualquer outra coisa seria quase impossível. Mas sim que mesmo esses fragmentos sejam baseados nessas pequenas performances, quase circenses, de fazer pequenos espetáculos de si diante das mini-plateias de cada dia. Porque afinal é isso o que domina a maior parte das interações. E estamos bastante conformados com isso. E fico pensando, não seria possível refundar a interação? Reinventar a comunicação? E se ao invés da eterna troca de gentilezas, piadas e comentários genéricos sobre política e seriados uma conversa pudesse ser uma escavação constante da complexidade do outro? Afinal a vida é curta e gente pra escavar tem aos montes.

Aliás, ler literatura alheia é uma ótima forma de escavação.