Porque acho importante o Nobel de literatura ir para a não-ficção

É sempre precipitado comentar um Nobel de literatura poucos minutos depois do prêmio. E mais ainda quando você nunca leu nada sobre a autora além de uma rápida folheada de páginas em uma biblioteca e alguns comentários online.

Dito isso, achei que tinha que vir aqui dizer o quanto acho significativo que hoje, Svetlana Alexiêvich tenha sido anunciada uma das raríssimas autoras de não-ficção vencedora do Nobel de literatura.

Por quê? Porque vivemos um mundo que é cada vez mais descrito e narrado através de números, estatísticas, percentuais, de coletivos abstratos como “povo”, “população”, “sociedade”, “comunidade”, “bairro”, “comunidade aduaneira”, e toda sorte de instrumento de “síntese” daquilo que é a vida vivida pelas pessoas que, de tão sintética, lhe arranca tantos detalhes que o que sobra já nem se parece mais com vida de verdade. Isso pra mim é um baita erro, desses de jogar a humanidade num abismo.

E considerando que a economia, a ciência política e a sociologia não tem dado respostas a essa manipulação bizarra da ideia do que é estar vivo, aqui, agora, nesse planeta, e que pouquíssima gente lê antropologia, resta talvez pelo menos ainda a literatura.

Independente de outros juízos, a Alexiêvitch é descrita como alguém que faz exatamente isso, uma história das emoções, que para mim é uma forma piegas e economicista de dizer que ela tenta descrever a vida vivida das pessoas, como se houvesse outra forma de fazer isso. Enfim, espero que gere algumas reflexões nesse sentido.

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