Truques literários: o super-outro

Às vezes me pego descobrindo algum tipo de estratégia literária que acho particularmente interessante mas na qual nunca tinha pensado antes.

Hoje tive uma dessas. Lendo “In the light of what we know” de Zia Haider Rahman (sim, não resisti a dar uma chance depois de descobrir que existia – a quem não sabe do que estou falando, ver post anterior sobre literatura financeira), o protagonista abre o livro descrevendo um amigo próximo com quem parece que vai dialogar ao longo da obra. O amigo é extraordinário, fala de matemática e de poesia como um superser, um super-outro, um herói da memória e da inteligência perfeitas, ainda que provavelmente tenha suas falhas enquanto pessoa no mundo (veremos).

O truque é isso de ter um superser de superinteligência, superpoética como contraponto ao protagonista imperfeito (frequentemente um protagonista que, como nós, busca esse tipo de perfeição e se frustra por ver que se esquece das coisas, das poesias e das ideias, e contamina o dia a dia com o sono humano).

Seria fácil dizer que esse contraponto serve para criar um ideal a ser perseguido pelo protagonista ao longo de sua história. Mais interessante provavelmente é apenas pensá-lo como um acompanhante, como poderia ser uma boa trilha sonora que acompanha um filme para completá-lo já que nossa vida já é silenciosa o suficiente, só que ao invés de usar música, usa esse mega-self, uma trilha não-sonora, trilha humana. Lembro de coisa parecida só em livros do Pamuk como o Neve. Mas claro que o Pamuk faz isso mil vezes melhor.

Literatura financeira

Cada dia que passa descubro uma nova categoria para classificação de textos literários. Aliás, gênero literário é o que não falta nesse mundo. Realistas, naturalistas, fantásticos, maravilhosos, fantásticos maravilhosos, sci-fi, cyberpunk, existencialista, sci-fi cyberpunk, e agora descobri também que existe a literatura financeira. E não, não é a bibliografia de uma disciplina aleatória de economia.

Vale como referência o ótimo artigo da Dissent Magazine, que traça todo o histórico da coisa, começando lá atrás com “O dinheiro” do Zola, passando por obras de Dos Passos e chegando nos dias atuais com uma pá de gente tentando NÃO APENAS falar sobre finanças em literatura mas realmente EXPLORAR a linguagem crítpica financeira como instrumento literário.

A questão levantada é ótima: em um mundo cada vez mais especializado e fragmentado, as formas de linguagem também se especializam. E porque não fazer literatura também com essa linguagem especializada? E quais são as suas possibilidades?

Por ora, não sei até que ponto tem gente em bolsas de valores lendo esse tipo de literatura, mas explorar a poesia da críptica capitalista em tempos de austeridade econômica me parece pertinente. Autores como John Lancaster e seu Capital, Mohsin Hamid e seu How to get filthy rich in rising Asia e, o que mais me deixou salivando, In the light of what we know de Zia Haider Rahman tem explorado essas possibilidades e tenho visto pouca gente falar disso.

Não sei se em breve teremos também literaturas explorando a linguagem críptica industrial, médica, ou farmacológica, mas bem que poderia ser bacana. A questão é que agora o momento é um momento em que a suposta “complexidade” do mundo financeiro faz com que apenas uma a elite econômica de auto-intitulados “especialistas” seja permitido pensar o que iremos e podemos fazer com o dinheiro do mundo e seus mercados. E esse mundo de especialistas começa a ser cutucado pela literatura.

E fica a pergunta: alguém está fazendo literatura financeira no Brasil? Jogando com linguagens crítpicas de especialistas? Quem? Quem souber ou tiver o paradeiro, quero nomes.

Textões

A semana está corrida e quem acabou sofrendo as consequências foi o blog que deu uma parada. Mas vamos lá.

– Eu acho fantástico que haja uma revista que fale sobre revistas. De verdade. No Brasil tem a PublishNews que é bacana e que ainda vai acabar aparecendo nesse blog, mas descobri recentemente a The Review Review que só pelo nome super-meta-meta já mereceria citação. Mas quero falar especificamente desta entrevista com Nin Harris, editora da revista Truancy, em que fala entre outras coisas sobre CONTOS DE FADAS CONTEMPORÂNEOS, e meio que detona com todo esse sistema ridículo que parece que congela contos de fadas (ou folktales) necessariamente no século XIX. O mundo literário às vezes parece que resolveu se dividir entre Antes dos Grimm e depois dos Grimm. Se não for ler a entrevista, leia pelo menos a citação: “I don’t think fairy tales will ever stop being vital to any age. As for fairy tale types, that question is rather fraught. We need, I believe, a strong alternative to Eurocentric classification systems. I think as we move into the future we will have newer systems of classification, and newer ways of understanding why the folk and fairytale is so integral to all of our cultures”.

– A Marina Cristaldo, que já publicou com a gente no verão passado e nesse inverno e cujos textos nós claramente adoramos, também tem um blog onde escreve todas as coisas que ela não envia pra Raimundo, e isso é bastante coisa. Enfim, esses dias ela escreveu tendo um pesadelo com Tarsila e contando que viu Tom Zé comprando um requeijão, e acho que é mais do que o suficiente para que qualquer um queira ler.

– Eu colocaria o texto no original em espanhol aqui se tivesse, mas como fui trombar com o Mario Levrero em inglês na ótima nova edição da Asymptote, vai a tradução em inglês mesmo. Afinal, não é todo dia que se tromba com Levrero falando de casas abandonadas misteriosas tomadas por homenzinhos de onze centímetros. Enfim, achei que vocês deveriam ser avisados.

Abre aspas

Já perdi a conta de quantos animais já degolamos, esquartejamos, dissecamos ou atropelamos na Raimundo. Mas poucos fizeram tão de maneira tão poética, tão filosófica, tão ensanguentada quanto Marina Skylab, no conto de Davi Boaventura, em nossa Edição amarrada em um poste.

Fotografei a cabeça dos onze pássaros que degolei no primeiro mês e dos seis do mês seguinte para que eu pudesse observar outra vez um pouco antes de dormir e procurei catalogar cada um de acordo com a cor, penugem, bico, formato dos olhos, onde comprei e horário da morte. Em um verso de caderno, eu listei sete pardais, cinco canários, um sabiá e quatro cotovias. Mas depois, no terceiro mês, de repente os pássaros não me interessavam mais e experimentei um hamster e me repeti na semana seguinte e novamente quatro dias mais tarde, matando quatro no total já que no último dia matei dois. Quando eu já planejava matar um cachorro, ou um coelho, desisti dos animais porque, apesar de estar cada vez mais perto do instante onde eu simplesmente iria olhar e iria entender e iria respirar aliviada, percebi não ser possível descobrir o que eu pretendia descobrir com pássaros nem com coelhos ou cachorros e nem com animal nenhum.

Nabokov e a complexidade de cada um

Ok, já aviso desde agora que não é porque o blog é de uma revista de nova literatura de língua portuguesa que vou falar só de autores novos e só de quem escreve em português. O blog é o blog e a revista é a revista (nada como silogismos para resolver assuntos controversos).

Parei por aqui só para dizer que acabei de terminar o O Olho (The eye), do Vladimir Nabokov, e precisava tirar alguns comentários da cabeça. Muito basicamente, o Nabokov queria falar sobre o olhar sobre o outro, que reduz a complexidade infinita de cada um a imagens bastante pessoais e fragmentadas. Os personagens (mini-spoiler) passam a maior parte do tempo conversando conversas relativamente superficiais como fazemos na vida, no mundo, no cosmos.

O que ficou batendo na minha cabeça quando fechei o livro não é que é impressionante que reduzamos a complexidade dos outros a fragmentos já que qualquer outra coisa seria quase impossível. Mas sim que mesmo esses fragmentos sejam baseados nessas pequenas performances, quase circenses, de fazer pequenos espetáculos de si diante das mini-plateias de cada dia. Porque afinal é isso o que domina a maior parte das interações. E estamos bastante conformados com isso. E fico pensando, não seria possível refundar a interação? Reinventar a comunicação? E se ao invés da eterna troca de gentilezas, piadas e comentários genéricos sobre política e seriados uma conversa pudesse ser uma escavação constante da complexidade do outro? Afinal a vida é curta e gente pra escavar tem aos montes.

Aliás, ler literatura alheia é uma ótima forma de escavação.